9788525433794

8 pages
10 views

Please download to get full document.

View again

of 8
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Share
Description
1. A vida não pode ser apenas um hábito. Katherine Mansfield 2. 11 As boazinhas que me perdoem –Qual é o elogio que toda mulher adora receber? Bom, se você está…
Transcript
  • 1. A vida não pode ser apenas um hábito. Katherine Mansfield
  • 2. 11 As boazinhas que me perdoem –Qual é o elogio que toda mulher adora receber? Bom, se você está com tempo, pode-se listar aqui uns 700: mu- lher adora que verbalizem seus atributos, sejam eles físicos ou morais. Diga que ela é uma mulher inteligente e ela irá com a sua cara. Diga que ela tem um ótimo caráter, além de um corpo que é uma provocação, e ela decorará o seu número. Fale do seu olhar, da sua pele, do seu sorriso, da sua pre­sen­ça de espírito, da sua aura de mistério, de como ela tem classe: ela achará você muito observador e lhe dará uma cópia da chave de casa. Mas não pense que o jogo está ganho: manter-se no cargo vai depender da sua perspicácia para encontrar novas qualidades nessa mulher poderosa, absoluta. Diga que ela co­zinha melhor que a sua mãe, que ela tem uma voz que faz você pensar obscenidades, que ela é um avião no mundo dos negócios. Fale sobre sua competência, seu senso de oportunidade, seu bom gosto musical. Agora, quer ver o mundo cair? Diga que ela é muito boazinha. Descreva aí uma mulher boazinha. Voz fina, roupas pastel, calçados rentes ao chão. Aceita encomendas de do- ces, contribui para a igreja, cuida dos sobrinhos nos finais de semana. Disponível, serena, previsível, nunca foi vista negando um favor. Nunca teve um chilique. Nunca colocou
  • 3. 12 os pés num show de rock. É queridinha. Pequeninha. Edu- cadinha. Enfim, uma mulher boazinha. Fomos boazinhas por séculos. Engolíamos tudo e fingí- amos não ver nada, ceguinhas. Vivíamos no nosso mundi- nho, rodeadas de panelinhas e nenezi­nhos. A vida feminina era esse frege: bordados, paredes brancas, crucifixo em cima da cama, tudo certinho. Passamos um tempão assim, comporta­dinhas, enquanto íamos alimentando um desejo incontro­lável de virar a mesa. Quietinhas, mas inquietas. Até que chegou o dia em que deixamos de ser as coi- tadinhas. Ninguém mais fala em namoradinhas do Brasil: somos atrizes, estrelas, profissionais. Ado­les­centes não são mais brotinhos: são garotas da geração teen. Ser chamada de patricinha é ofensa mortal. Pit­chulinha é coisa de retardada. Quem gosta de dimi­nutivos, definha. Ser boazinha não tem nada a ver com ser ge­nerosa. Ser boa é bom, ser boazinha é péssimo. As boazinhas não têm defeitos. Não têm atitude. Confor­mam-se com a coadju- vância. Ph neutro. Ser chamada de boa­zinha, mesmo com a melhor das intenções, é o pior dos desaforos. Mulheres bacanas, complicadas, batalha­doras, per- sistentes, ciumentas, apressadas, é isso que somos hoje. Merecemos adjetivos velozes, produtivos, enigmáticos. As inhas não moram mais aqui. Foram para o espaço, sozinhas. Agosto de 1997
  • 4. 13 A imprensa não age sozinha Princesas não morrem. Ao contrário: são felizes para sempre. Isso explica grande parte da comoção pro­vocada pela morte absurda de Lady Di. Eu mesma, que já havia criticado seu comportamento semirretardado durante a célebre entrevista para a BBC, fiquei sensibilizada. Ao re- cuperar a solteirice, a ex-futura rainha da Inglaterra parecia ter voltado a ser simplesmente Diana Spencer, uma mulher ma­dura, bonita e livre, que respondia pelos seus atos em vez de continuar fazendo o papel de vítima da família Real. Diana estava renascendo, mas se foi, num parto prematuro. É fácil prever que a imprensa não sairá ilesa do acidente, já que foi confirmado que alguns paparazzi seguiam o car- ro da princesa no momento da tragédia. Segundo muitos, quem matou Diana não foi o acelerador, mas as lentes dos fotógrafos. Deve ser mesmo um inferno essa perseguição impla- cável, essa falta de privacidade que impede cele­bri­dades de terem uma vida normal. Diana não podia abrir uma janela sem que houve dezenas de teleobjetivas apontadas em sua direção. Sua rotina era uma verdadeira prisão de segurança máxima. Mas os jornalistas sensacio­nalistas não merecem levar a culpa inteira. Também temos algo a ver com isso.
  • 5. 14 Nada mais emocionante do que a vida dos outros, ou você lê a revista Caras pelo seu texto erudito? “Os outros” são ricos. “Os outros” são lindos. “Os outros” têm amantes, segredos, histórias para contar. Até a casa do vizinho, vista de fora, parece mais aconchegante que a nossa. Viver a pró- pria vida é ente­diante. A dos “outros” é que merece foco, e as vendas de lunetas vão muito bem, obrigada. Enquanto houver mercado para a bisbilhotice, haverá paparazzi. Uns mais discretos, outros mais atrevidos, mas todos de plantão. Podemos chamá-los de urubus, só não sejamos cínicos: o boicote às fotos de Diana acidentada dentro do carro é o mínimo que se espera, mas quantos leitores boicotariam um jornal que as publicasse? Diana, sem querer, foi a vítima perfeita. Era loira, lin- da e aristocrática, o que não combina com vida mundana. E foi também adúltera, divorciada e roqueira, o que não combina com contos de fadas. Era uma princesa moderna, uma plebeia coroada, uma contradição fascinante. Tímida e forte, coadjuvante e estrela, tudo ao mesmo tempo. Mais do que uma mulher, um ícone. E quem a consumia éramos nós, que fazíamos triplicar a tiragem das revistas cada vez que ela aparecia na capa. Sem Diana, é como se tivéssemos que aprender a viver sem coca-cola. Toda celebridade é um produto de consumo, não importa o valor de seu trabalho. John-John Kennedy, Ma- donna, Michael Jackson, o Papa, todos eles estão expostos na vitrine da mídia. Fatura-se em cima de suas imagens, e eles faturam também, se não em espécie, em poder. Lady Di morreu precocemente porque o motorista da Mercedes
  • 6. 15 estava a 160km por hora numa via pública. Se fez isso por conta própria ou se estava obedecendo ordens, ninguém sabe. Os paparazzi foram cúmplices? Talvez, mas nosso voyerismo também não sai dessa inocente. Agosto de 1997
  • 7. 16 A hora e a vez dos fanáticos Reconheço: para muita gente, um BMW de se­gunda mão está valendo mais do que um bom caráter. Entendo que, quanto mais o mundo se torna materia­lista, mais a religião conforta, mais força ganha sua função escapista. Admito que os valores atuais andam sem pai nem mãe, sobrevivendo às custas da boa vontade de poucos. Estou quase convertida, notem. Mas, de fanatismo, poupem-me. Vamos ao assunto. É sobre a regulamentação da lei que autoriza mulheres grávidas que correm risco de vida ou que tenham sido estupradas a recorrer ao aborto através do SUS – Sistema Único de Saúde ­–, ou seja, pago pelo Estado. Polêmica. Histeria. Cru­cifixos tirados às pressas dos baús. Uma verdadeira guerra irracional, se é que existe outro tipo de guerra. A lei que permite o aborto nos dois casos citados – risco de vida e estupro – existe desde 1940. É claro que há gente que não concorda. Natural, nada na vida é unânime. Mas os protestos não chegavam à mídia. Era, supostamente, um assunto encerrado. Foi preciso vir à tona a lei que autoriza o direito à assistência médica gratuita para despertar a ira daqueles que falam diretamente com o Senhor. Eles são contra o que, afinal? Contra o aborto nos casos permitidos
  • 8. 17 por lei ou contra a assistência médica gratuita? Parece ser apenas mais uma oportunidade de gritar contra o aborto, pelo simples mencionar do assunto. Mas não é só isso. A verdade é que eles não querem que o Estado facilite a vida das hereges. O Irã é aqui. A fronteira entre o emocional e o racional é tênue como um fio de cabelo. Racionalizar sobre paixões é o pior dos exercícios: prefiro fazer 300 abdo­mi­nais. O inconsciente coletivo não quer saber da experiência privada de cada um. Sua filha de 13 anos foi violentada por um marginal e en- gravidou? Sua irmã tem hipertensão e pode morrer na mesa de parto? Danem-se. Que venham os bebês. Os psiquiatras estão aí mesmo para juntar o que sobrar das mães. Ser contra o aborto é uma atitude legal e legí­ti­ma. Ninguém é obrigado a aceitar. Mas negar a realidade é o pior dos ópios. Milhares de mulheres pobres não querem abortar: elas precisam abortar, seja por risco físico ou risco psicológico, e têm nas mãos, agora, a primeira chance de fazer isso de graça, com higiene e segurança. Os fanáticos que acusam essas mulheres de assassinas é que estão ma- tando sem saber. É um atraso imperdoável. Não é de hoje que a política contabiliza vitórias e derrotas em cima de dramas pessoais. A vida dos outros, mesmo alheia à nossa, nos pertence. Chama-se a isso sociedade. Quem pode, procura uma clínica clandestina. Quem não pode, procura um carniceiro e entrega a Deus. Agosto de 1997
  • Similar documents
    We Need Your Support
    Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

    Thanks to everyone for your continued support.

    No, Thanks